Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
ouve-se o mar...

Deito-me sobre a cama e apercebo-me que estava cansado, sinto o ar entrar e sair sob a minha pele. O colchão e as almofadas ajustando-se a um corpo que quase não reconheço, estou consciente de um corpo frágil e velho. O tempo passa depressa. Foi quase um suspiro, mas ouço a voz da minha neta quase do outro lado do mar responder-me, pois passa, avô, pois passa. Sinto a mão quente dela enroscar-se nos meus dedos. Tem as mãos tão frias, acrescenta enquanto as junta sob as palmas dela, na verdade não sabia que as tinha frias até sentir o calor das suas mãos. Também não sabia que estava a chorar até sentir a mão dela limpar as lágrimas. Não faz mal, eu aqueço-as. Senti o corpo dela estender-se ao meu lado, puxou um cobertor sobre nós e abraçou-me com os seus braços pequenos. Senti o sorriso dela e soube que ela percebia, ela compreendia. De certa forma ela sabia por que estava a chorar, mas eu não.

 

Senti a brisa do mar, é Outono, por momentos julguei-me aí. De pé sobre o areal, vendo o mar aproximar-se e afastar-se e o frio a cair sobre mim como um manto de neve. Quis olhar para trás, mas tive medo de descobrir que não estavas sentada a um metro de mim, com o olhar preso na areia desenhando com uma concha. Tive medo de descobrir que já não tenho dezoito anos e sim estes setenta e seis que me quebram a alma e o corpo. Dizem que posso esquecer tudo, porque é uma doença progressiva. Eu que nesse areal jurara nunca mais, nunca mais, esquecer o teu aniversário. A velhice é que é a doença progressiva, tudo em mim é velhice, menos tu. É uma realidade com a qual ainda não me identifico, lembro-me de tudo, lembro-me tão bem de ti. Ainda sinto um braço à minha volta embora não sinta na realidade o seu peso sobre mim, é esse braço que me afasta do areal.

 

Frequentemente diz naquela voz doce de adolescente sou eu avô, a Margarida. Não me imagino a olhar para ela sem recordar aquela menina que atravessava o jardim a correr para me abraçar mais depressa. Sente vontade de chorar, mas nunca chorou à minha frente. Ontem ouvi-a chorar sobre aquela pedra no centro do jardim, aonde lhe declamava a Bela Infanta quando era pequenina, e não ousei aproximar-me. Chorava como já te vi chorar há muito, muito, muito tempo atrás. Uma tempestade dentro do seu corpo. Tem medo que me esqueça dela, noto alguma hesitação em aproximar-se quando fica muito tempo sem me visitar, o que geralmente não é mais que alguns dias. Há algumas semanas atrás passou a tarde a cuidar das flores que tu plantaste no jardim, fá-lo com tanta ternura como se na verdade tratasse de ti. Nunca arrancou uma só flor, nem quando era miúda e desenhava princesas com flores no cabelo, pergunto-me se sabe que também nunca o farias. Perto da hora de jantar voltou para casa despenteada e rosada do sol. Arqueei as sobrancelhas ao vê-la entrar e disse acho que a conheço de um filme? Ou a menina canta?. Era uma brincadeira, mas ela ficou aflita. Os olhos encheram-se instantaneamente de lágrimas e esboçou um sorriso a custo enquanto se preparava para dizer sou eu avô, a Margarida. Devias andar assim mais vezes, Margarida. Quase soltou um suspiro de alívio e abraçou-me rapidamente antes de correr para a casa de banho para se limpar para o jantar.

É parecida contigo, não vai desistir, mas lamento fazer-lhe isto. Às vezes grito-lhe ou ignoro-a, ela sorri, julga o meu mau feitio como sentido de humor. Preferia que me deixassem passar por isto sozinho, receio marcá-la para toda a vida com o meu sofrimento. Digo-lhe que me deixe em paz, que é chata como tu. Ela sorri, mas sorri de verdade, como se não tivesse mais por onde estender aquela fileira de dentes claros. E pergunta-me se quero um chá ou uma fatia do bolo que acabou de fazer.

Lê para mim, especialmente poemas. Pega na obra completa da Sophia de Mello Breyner, pousa o livro numa almofada que coloca sobre o colo e quando a ouço dizer este é um dos meus preferidos, sei que vai ler um dos teus poemas preferidos. Nunca lhe disse que o livro te pertencia, que o líamos um ao outro ao som das ondas do mar nessa praia tão distante, porque seria capaz de o estimar demais. Sempre que abre o livro sinto o cheiro a mar misturado com o cheiro das tuas roupas, sinto os pés gelados e vejo uma onda alcançar os nossos pés no areal.

A voz dela soa igualzinha à tua quando canta, canta baixinho, suavemente. Está convencida que me acalma ouvi-la cantar e talvez acalme, sinto todo o lado esquerdo do corpo doer de saudade, de arrependimento, e nem tenho espaço no cérebro para sentir as dores nos ossos e nos muitos órgãos que agora trabalham mais preguiçosamente. Está plenamente convencida que me conhece, que detém o meu amor incondicional, ou pelo menos age como tal. Já te disse que me recorda de ti?

Tudo o que vejo lembra-me de ti. Tudo o que ouço, tudo o que cheiro, tudo o que como, tudo o que faço. Tudo me lembra de ti. As nuvens, como naquela tarde em que criaste histórias sobre amazonas de cabelos compridos, cães deitados ao sol, dragões de saltos altos e eu sorri para ti e vi-te pintada no céu azul e branco. As nuvens lembram-me de ti. O ar porque o respiravas, porque segurava a respiração quando olhavas para mim e sorrias, porque passei horas a sentir o teu corpo respirar sobre o meu. O ar lembra-me de ti. Olho para uma pedra pelo caminho e vejo mil razões para pensar em ti. São milhões e milhões de memórias que não me imagino a perder. Tudo em mim é o nosso amor, os momentos que passamos juntos, o teu choro, o teu riso, as tuas palavras, os teus beijos, as tuas mãos a prender as minhas. Eu vivo da tua ausência.

A leitura é um hábito que adquiri com a velhice. Leio os mesmos livros que tu leste e alegra-me saber que algum dia tu paraste naquela mesma página. Entro em êxtase com as frases que sublinhaste e detenho-me longos minutos a tentar interpretar aquela mesma passagem como tu interpretaste. Às vezes tenho a sensação que não é a primeira vez que leio aquela passagem. Como se de alguma forma tu a tivesses lido para mim, talvez num outro universo, num mundo intercalar com os meus sonhos e esta realidade de não poder estar contigo outra vez.

Arrasto uma cadeira até ao jardim e sento-me sob o guarda-sol submerso no intenso aroma das rosas e das outras flores, que honestamente não sei o nome, que dão cor ao nosso jardim. O meu olhar perde-se inevitavelmente na calçada e imagino-te a arrastar a tua mala cheia de autocolantes do Jim Morrison de volta a casa. O teu cabelo agita-se com o vento, levantas o rosto para mim e sorris, tento levantar-me mas estou fraco, não sei se da idade, se da falta de ar, e a ilusão quebra-se. Tenho demasiadas ilusões contigo, tu sabes, estou convencido que só tu me podes salvar de todos os males, todas as dores. Sempre disseste que te exigia a perfeição, que exigia demais. Sempre soube que te amava tal como eras, mas foi o meu maior segredo. Se te tivesse amado menos tinha ficado contigo.

O cheiro a mar, o vento gelado… Abracei-te com força, senti os pés submersos na areia húmida e o teu corpo gelado quase a aquecer junto ao meu.

-Vou-me embora amanhã. –Revelei, inspirei profundamente e senti o perfume do teu cabelo.

Afastaste-te, olhaste-me… Relembrei este momento milhões de vezes e não houve sequer uma faísca de hesitação da tua parte quando disseste…

-Vou contigo.

Há momentos que nos prendem o coração e ao longo da vida, ao recordar, o nosso coração volta a bater da mesma forma e aquele momento, já tão longe, torna-se tão presente que o sentimos na nossa respiração, no nosso corpo. É uma sensação tão intensa e física que aquele momento está próximo demais para ser só uma recordação. Há momentos especiais… Um momento que foi um só instante, mas dura uma vida inteira. Resta esta sensação… ser tarde demais para te dizer tudo o que senti, sinto.

 

 

 

- meses depois -

 

Chego da escola, estou a subir a calçada e vejo-o sentado no jardim. A cadeira branca, o mesmo livro de há meses sobre a mesa ao lado da chávena de chá. A minha mãe diz não sei como consegues travar esta batalha todos os dias, não é uma batalha, mas ela não o conseguiria perceber. Talvez porque nunca ouviu uma das nossas conversas. Neste jardim o tempo é volúvel nas suas mãos e o meu mundo é o mesmo em que ele está.

Quando era pequenina ele vinha brincar comigo, hoje venho eu brincar com ele. Não é um sacrifício, nem sei se é por ele que faço isto. Sento-me na cadeira vaga ao seu lado, nunca consigo perceber se estava à minha espera ou se ficou surpreso com a minha chegada. Na maioria das tardes ficamos os dois calados, por vezes leio-lhe poemas ou livros ou mesmo o jornal. Outras vezes ele fala, são as minhas tardes preferidas, raramente o interrompo. Não sei se o que ele está a dizer aconteceu de facto ou se são só as suas ilusões, mas ele fala com tanto sentimento… acho que sei… eu sei que é verdade, mas não é comigo que ele está a falar. Penso dizer-lhe sou eu, avô, a Margarida, mas a frase não sai, porque sei que isto é importante para ele.

-Amo-te! Só hoje me apercebo, estiveste sempre à minha espera. E eu sempre a tentar chegar a ti. Desculpa. Desculpa, Raquel, ter-te deixado à minha espera e ter ido sozinho. Desculpa-me…

Avassalada pela comoção continuo calada sentindo o olhar dele em mim. A minha expressão não é de confusão, mas sim de emoção… Às vezes pergunto-me se não serei mesmo a Raquel, se a Raquel não é um cantinho de mim, se a Raquel não me contou o lado dela da história talvez em sonhos. Ele pega-me na mão e eu aperto-a, ficamos em silêncio a ver o sol descer entre as colinas.



publicado por Andreia às 00:01
link do post | favorito

.mais sobre mim
.Junho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.pesquisar
 
.Fazer olhinhos